domingo, 16 de novembro de 2008

os surrealistas

Então existiram os surrealistas. E uma hora, mas precisamente as dez horas da noite de um dia frio de novembro em Paris, sim sim, Paris, que ainda existia, existe ainda, acreditem : Paris, nesta hora, as dez da noite de um outono parisino, de folhas caídas no chão, a pulsão era o mais importante. Eles vem e eles vão. Eu sou igual a todas as outras. Ainda me lembro. De tantos momentos não tão distantes de mim. Das flores do meu jardim. Do caminho até o elevador. Das pedras vermelhas na parede. Do barulho da rua paulista. Do vento da chuva e da feira aos sábados. Mas aqui em Paris, as folhas estão todas no chão. É outono. Aos domingos eu vou ao museu e pratico italiano. As vezes, no mais estou praticando francês o tanto quanto eu posso. E ainda sinto uma falta tremenda. (dele.) Que esfolada no meu peito! Que sangra sangra sangra sangra sangra sangra, sangra, sangue, sangue sangue. A onde estava você ? Antes. Antes. D’eu te existir. Te dar-te a existência mais pura de mim. E eu sei tanto que você existe. Os caminhos das suas linhas. A verdade quando é de verdade vem vestida de ilusão. Estou a parir a cada dia mais uma fêmea de mim. Que dores de parto que sinto a cada manhã! Que força estranha vou conhecendo de mim. Que sexo pulsante que vai me possuindo. Ela dança. Ela dança. E gira e gira. Ela dança ainda. Mesmo no escuro. Mesmo com medo. Mesmo pecando. Ela dança. Ela deita. Mesmo com medo. Mesmo sorrindo. Ela chora. Lá do fundo, da onde vem o mais lindo sorriso escorre a mais vermelha das lágrimas. Choro incontido que canta nas minhas horas esse outono novo. De folhas amarelas no chão. De meninos que vem e vão. Ainda escuto Coco Rosie. Que me lembra o meu Camino. E Lyon. E ele, que me cantou cantando aquela última da CocoRosie. Será que ele nunca mais sentiu vontade ? Queria tanto que ele sentisse tanta tanta tanta tanta tanta tanta tanta tanta tanta vontade que explodisse em mil estaladas no meu telefone me dizendo vem vem vem vem vem vem vem vem dançar aqui! E eu ia eu ia eu ia eu ia eu vou ! Será que sou eu a pobre Helena de Demetrius ? Que chora e lhe implora. Será que não terei nunca mais o amor incontestável de Lizandro e Hernia ? Pobre Helena de Atenas de um sonho de uma noite de verão… Que venha meu bom Puck jogar-te a poção nesses olhos que não me olham. Que me venha do céu, dos mares, das florestas, de dentro e de fora, de baixo e de cima, que venha, que venha e me tome, me carregue, mas me proteja, me coloque, me retorne, me torne, me entorte, mas me ame, e me proteja, mas que venha, mesmo se forte que me possua.

Em quantos espelhos terei eu que procurar a face perdida de mim? Se já não posso mais sorrir inocente. Se conheço já todas as armas do jogo. Se já aprendo a jogar.

Queria eu somente o sopro dos anjos nos meus cabelos. E mãos de fadas no meu coração. O canto das almas que voam.

Será que existe algo… que ainda não sabemos chamar… por algum código nominal ? Um físico hoje, durante a tarde, de um passeio frio pelo Quartier Latin, me disse que no universo há muitas milhões de partículas sem nomes sem explicação sem nenhum entendimento nominal e que ele, ele menino de tudo, está tentando entender o que são… essas partículas minúsculas, que nos atravessam, mas de uma forma tão rápida e indolor, que não é possível conhecer. O desconhecido,

Ele disse também que há pelo menos 40% de coisas jogadas no universo que ninguém sabe dizer o que é.

Mas o universo está sim e continuará ainda por um bom tempo em uma tremenda expansão.

Continua. Constante. Pulsante.

E que o sol, estrela mais poderosa e cheia de vida e vontade está entrando agora justamente na sua metade. Metade de vida. E eu achei isso bonito. Estar vivendo agora a maturidade solar da sua vontade de existir, existindo eu em Paris. Neste outono das folhas amarelas que tomam o chão como um lindo carpete (e eu falo francês.) Petit à petit.

E nas aulas de história vou descobrindo que apesar da constante expansão do espaço universal, aqui a onde há terra e pés no chão a expansão é em cambalhotas que retornam sempre. O eterno retorno daquilo que sempre continua continua continua… acontecimento permanente do mesmo novo aquele mesmo de sempre que é sempre um outro nunca o mesmo sendo sempre o único e não um outro.

E continuo andando. Andando. Andando. E te procurando. Você que ainda eu não conheço. Mas que tanto já quero. E saindo do metrô as sete da manhã na Place de La Concorde, eu atravesso a ponte, mas paro antes para contemplar ao fundo o mais lindo cartão postal que existe. Minha querida Notre Dame. Paris. E respiro. Respiro. E não entendo e por isso continuo.

2 comentários:

Cassandra Mello disse...

Flavia, caí aqui e me quedei enamorada desse seu texto.

é tão assim mesmo, esses partos, essa vertigem, as partículas que a gente não vê, o inominável, essa paixão por uma pessoa que ja existe, sabemos que sim, meu Deus, o que ela está fazendo exatamente agora?

*suspiro*

tão bonito.

Flávia Lorenzi disse...

pois é...
obrigada cassandra!